Conversa vai, conversa vem, e a cada sessão de terapia eu percebo que um passado não tão distante vai ficando borrado diante da pessoa que estou me tornando. Nesta postagem, quero compartilhar um pouco da minha vivência com o transtorno afetivo bipolar, dos sinais que hoje consigo reconhecer com mais clareza e do processo de autodescoberta, cuidado e reconstrução que venho atravessando.
Contexto: desregulação, rotinas destrutivas e falta de autodirecionamento
Eu convivo com a bipolaridade desde a juventude, mas o diagnóstico veio tardiamente. Ainda assim, hoje consigo reconhecer que fiz o que pude, por muito tempo, para tentar me autorregular sozinho. Olhando para trás, percebo que havia sinais do transtorno bipolar em diferentes fases da minha vida, mesmo quando eu ainda não tinha nome para o que estava acontecendo.
Quando se fala em neurotransmissores, química cerebral e regulação do humor, o assunto é complexo e vai muito além de uma explicação simples. Hoje eu entendo isso com mais humildade. Em vez de olhar para o passado com culpa, escolho olhar com aprendizado. Meu foco agora é reconhecer padrões, ajustar comportamentos, fortalecer o autocuidado e construir uma rotina mais estável, sempre com acompanhamento adequado.
Ao lançar esse olhar sobre o passado, eu percebo que o transtorno afetivo bipolar, na minha experiência, apareceu junto de desregulação emocional, comportamentos impulsivos, rotina desorganizada, alimentação ineficiente e dificuldade de autodirecionamento. Não era apenas uma fase: era um conjunto de sinais que impactava minha saúde mental, meu corpo e a forma como eu conduzia a vida.
Os sinais que hoje eu consigo reconhecer no meu passado
O organismo de quem convive com T.A.B. é complexo, e eu só posso falar da minha própria vivência. Ainda assim, quando revisito minha história, alguns pontos ficam muito nítidos para mim:
- Mania e hipomania também cobram um preço: Eu ainda tenho gravada no corpo e na memória a exaustão que vinha depois das manias e hipomanias. Meu corpo ficava destruído, minha mente exausta. Era o completo oposto do que eu sentia antes, quando parecia que eu tinha energia infinita, autoconfiança demais e a sensação de que podia dar conta de tudo. Quase sempre, eu assumia mais do que qualquer pessoa conseguiria sustentar. Eu ia do luxo ao lixo em uma velocidade assustadora.
- Concentração exigia esforço demais: Nem sempre isso parecia o maior problema, mas muitas vezes eu sentia que precisava fazer um esforço exagerado para me concentrar em tarefas básicas do dia a dia, manter o foco e até demonstrar interesse. O que para muita gente era simples, para mim às vezes já começava pesado.
- A depressão atravessou boa parte da minha vida: Durante muito tempo, a depressão conduziu grande parte da minha experiência. Havia questionamentos profundos, silêncios difíceis e um vazio enorme que eu escondia por dentro quando entrava em fase depressiva. Era um sofrimento real, mesmo quando ninguém conseguia ver.
- A rotina era um campo de batalha: Eu praticamente não tinha rotina. Era um caos. E toda vez que eu tentava estruturar horários, hábitos ou constância, parecia que tudo desmoronava rápido. Isso não só me frustrava, como também reforçava a sensação de incapacidade e desorganização.
- O autocuidado parecia simples para os outros, mas não para mim: Eu juro que tentava. Mas era muito difícil me alimentar bem, sustentar uma rotina mínima de cuidado e também abrir mão do álcool, que por muito tempo funcionou como um grande sabotador. Hoje eu entendo que autocuidado, para quem vive em desregulação, não é detalhe: é parte do tratamento e da sobrevivência.
Nada disso me define, e nunca vai definir. Hoje eu tento construir equilíbrio com mais consciência. Aos poucos, na terapia, vou desemaranhando confusões antigas, padrões de comportamento e hábitos que se formaram em meio à dor. E, nesse processo, tenho aprendido que saúde mental também se fortalece com constância, acolhimento e paciência.
Um olhar para o futuro
Assim como olho para o passado como experiência e aprendizado, tenho aprendido a olhar para o futuro com mais esperança, ânimo e presença. Penso nas coisas boas que ainda vou conquistar, nas novas oportunidades que podem surgir e, principalmente, na vida que posso construir com mais estabilidade, consciência e cuidado.
Mais do que pensar na pessoa que vou me tornar, eu quero aprender a viver o presente com paciência, responsabilidade e amor. Se antes eu sobrevivia no improviso, hoje eu quero viver com intenção — um dia de cada vez, respeitando meus limites, fortalecendo meu autocuidado e honrando a minha própria trajetória.
